O ano começara com grandes prenúncios para Renato. Estava vivendo um novo amor que havia iniciado nas últimas horas de 1988. No primeiro domingo daquele ano faria seu novo vestibular. Não que isto o preocupasse. Como a conversa e a aposta havia surgido em um bar, ele não tinha o menor pudor de confessar que faria o melhor dele para passar no vestibular do que pela carreira que o curso de Letras pudesse lhe oferecer. Não conseguia se vir em uma sala de aula, diante de vários alunos ávidos – e outros nem tanto – de conhecimento. Mais que isto, atribuía a escolha do curso a um simples acaso, nada mais.
Verdade que o novo amor começava um pouco mais complexo e muito mais pé no chão que todos os anteriores. Talvez fosse disso que ele precisava. Talvez não. Pessoas movidas à paixão, a idealismo trazem – invariavelmente – esta dicotomia como marca da sua personalidade. Não que seja – necessariamente – um desvio de caráter. Mas o novo, o desafiador, o inesperado e principalmente o ilógico e o irracional criam em pessoas assim um fascínio que só quem vive é capaz de entender.
Mais que o vestibular, o jovem comunista tinha agora um novo problema pela frente. Como explicar aos seus pais que haviam ficado mais de 40 pessoas numa casa onde cabiam 13? Como explicar que até barraca de camping havia sido montada na garagem da casa? E o pior de tudo: como explicar o estrago e respectivo conserto que havia acontecido na bomba d’água? Realmente aquele era um sério problema que Renato teria pela frente. Ainda assim, preferiu o silêncio. Caso a verdade viesse à tona, aí daria as explicações necessárias. Se convincentes era outro detalhe que ele pensaria depois.
No dia 12 de Janeiro daquele ano uma coisa estranha, que só tinha sentido no maio anterior aconteceu com ele. Fazia poucos dias que havia terminado o vestibular. O namoro com Márcia ia de vento em popa mas subitamente uma sensação de aperto, dor e alívio – nesta ordem – foi sentida em seu coração como ele só tinha sentido uma vez. A dor foi tão forte que precisou sentar-se numa cadeira de uma lanchonete próxima para descansar. Seus amigos ficaram preocupados, temendo pela sua saúde.
Subitamente sua fisionomia foi melhorando. Um ar de felicidade tomou conta do seu rosto. Num lampejo viu uma borboleta sentar sobre seus ombros e sentir um alívio como nunca tinha sentido antes. Lembrou da imagem que tinha tido no suplício da tortura psicológica em 1985. Temeu por sua sorte. Mas estava tão feliz que pediu uma cerveja para comemorar. Exatamente o que não se sabia. Talvez a vida. E sem saber era exatamente isto que comemoravam. A quilômetros dali, na cidade de Goiorê, no interior do Paraná alguém vinha ao mundo para trazer uma alegria poucas vezes sentidas no coração de Renato. Traçar uma história que por si só daria um novo romance. Imprimir nele o sentimento de eternidade que não havia sentido com tanta força.
Era o ano do centenário da República. A democracia estava, de fato, voltando ao país. Naquele ano, depois de décadas o Brasil voltaria a eleger o seu presidente de forma direta. Um verdadeiro frenesi tomava conta do país a respeito de nomes que seriam candidatos e de nomes que pudessem conduzir o Brasil ao progresso tão sonhado, começando pelo fim da censura e da inflação absurda que assolava a todos naquela época. Algo que fosse definitivo e que Sarney só havia dado o “gostinho” no seu malfado Plano Cruzado.
Antes porém que acontecessem as eleições, Renato passou novamente no vestibular. Desta vez em oitavo lugar. Riu muito, pois não havia estudado literalmente nada para aquele concurso e ainda tinha sido aprovado entre os dez primeiros. E desta vez estaria mais próximo de alguma coisa que fazia com prazer. Escrever, estudar os mecanismos e as tendências da Língua e das Literaturas Brasileira e Portuguesa. Quem sabe não estaria aí a verdadeira carreira que ele tanto sonhava? Era mais uma aposta que o jovem comunista fazia a si mesmo como forma de se empolgar na aventura que agora iniciava e que tinha nascido numa mesa de sinuca de um bar.
Começou a cursar Letras e não demorou muito para se empolgar com o curso. De uma hora para outra via o quanto havia demorado para encontrar algo que aliasse conhecimento a prazer. E sem grandes pretensões, entendera para si mesmo a causa da enorme evasão escolar nas Universidades. Quando não se faz esta ponte, ou se desiste do curso ou se coloca mais um profissional frustrado no mercado.
Como já havia passado pelo curso de Direito, sabia que era fundamental manter contato com as escolas, desde o primeiro ano do curso, para poder sair da Universidade empregado. Aquele ano também seria ano de eleição para Reitor na UEL. E não demorou nada para que Renato se empolgasse e se encaixasse na candidatura de Nitis Jacon, sua ex-diretora dos tempos de teatro e por quem sempre nutriu grande carinho e respeito. Além disto, construiu na Universidade uma relação estreita com um grupo de amigos – notadamente com João Batista – que futuramente faria com que um ajudasse ao outro profissionalmente falando.
Não demorou muito e foi chamado pelo Colégio São Paulo para trabalhar. Na realidade começou como professor naquela escola por engano. Entregou seu currículo lá em um dia e no dia seguinte foi chamado. Ao chegar foi efusivamente recebido como se o esperassem há décadas. Percebeu que não era exatamente ele o professor que esperavam, mas como queria demais aquela primeira experiência calou-se e esperou que sua contratação fosse efetivada. E assim no dia 15 de agosto daquele ano, iniciava sua carreira de professor entrando pela primeira vez numa sala de aula.
Paralelamente á carreira de professor, continuava sua militância política. Não militava mais no PCB. Agora estava no PSDB, de onde foi fundador em Londrina, tendo sua ficha de filiação abonada por José Richa e Mário Covas, este último candidato á presidência naquele ano. Na Universidade também militava politicamente para ver sua amiga tornar-se a primeira reitora daquela instituição. Sua vida amorosa caminhava a passos largos para que no final daquele ano ele casasse pela segunda vez. Suas músicas, continuavam participando e ocasionalmente ganhando um prêmio ou outro em festivais. Enfim, sua vida cultural, política, profissional e amorosa estavam se encaixando perfeitamente. O que mais poderia se exigir da vida?
E foi assim que Renato entrou de cabeça sua militância naquela campanha presidencial em favor do então Senador pelo Estado de São Paulo.
Em pouco tempo descobriu que tinha mais jeito para o magistério do que tinha imaginado até então. Não demorou muito para se tornar um dos professores mais populares daquela escola. Na realidade, havia entrado para substituir um professor que era mais pré-adolescente que os próprios alunos. E os planos da direção do Colégio São Paulo era mantê-lo até o final daquele ano letivo. Principalmente porque ele era apenas um acadêmico em início de curso. No entanto, sua popularidade fez com que a direção refizesse completamente seus planos.
A sua característica peculiar de assumir publicamente suas preferências políticas, ao contrário do que se pudesse imaginar, fez com que seus superiores prestassem mais atenção á sua postura. O jovem professor era, de fato, a prova viva que o Brasil agora vivia uma nova época. Não temia dizer que tinha optado por um candidato de esquerda, numa época em que todo tipo de restrição era feita em quem optasse em ser de esquerda abertamente.
Além disto, presenciava na Universidade algo que o deprimia muito. Surgia naquele ano a figura da “acompanhante”. Profissional do sexo, recrutadas em Universidades e Faculdades para “atender” empresários “graúdos” da cidade e região. Como ainda não eram todos que dispunham de ter um celular – além de caro era uma coisa altamente “vistosa” – as ligações eram feitas para o Orelhão do Centro onde ele estudava. No começo achou engraçado o fato do aparelho tocar nos intervalos e várias alunas correrem em direção a ele. Depois começou a que ponto chegava a miséria humana. E isto começou a se tornar uma pessoa descrente em relação ao ser humano. Por suas convicções, cria que o ser humano precisava apenas do básico e de um amor bonito e pleno para ser feliz. E aquela ambição de pessoas que não precisavam se submeter aquela o fez focar ainda mais nos seus alunos, iludido que ele poderia modificar a realidade a partir de suas aulas.
Não demorou muito para que marcasse seu casamento com Márcia para o dia 15 de dezembro daquele ano. Apesar de estar vivendo com intensidade o clima da eleição presidencial dentro da própria universidade e nos seus contatos com seus amigos, precisava aquietar o coração. Acreditava que o namoro nascido na Festa de Iemanjá seria o tal do amor eterno. Ainda que não sentisse isto com a vibração que já havia sentido duas vezes anteriormente sem que conseguisse dar uma boa explicação a si mesmo, pensava aquela ser sua relação afetiva duradoura.
No entanto seu foco estava no deslumbre que o magistério estava se apresentando. Mal entrou no Colégio São Paulo e deparou com seu primeiro conflito de ordem ideológica. Os professores mais antigos resolveram parar suas atividades porque alegavam que não recebiam adequadamente. Em outras ocasiões, teria se solidarizado com o movimento no primeiro momento. Mas, naquela ocasião, preferiu refletir consigo mesmo. Renato que sempre fora uma pessoa impulsiva, colérica, passional agira de uma forma racional poucas vezes vista. E, contrariando suas mais íntimas convicções preferiu apegar-se ao emprego do que aderir á greve.
Sua atitude não poderia ter sido melhor. No dia seguinte os jornais da cidade estamparam um grande anúncio onde se lia escrito: “COLÉGIO SÃO PAULO CONTRATA PROFESSORES”. Desnecessário dizer que o anúncio acabou com a greve sem que houvesse, imediatamente, punições ou demissões aos professores que aderiram ao movimento. No ano seguinte, porém, alguns dos líderes do movimento foram “promovidos” a dar aula exclusivamente nas unidades de Bandeirantes e Cornélio Procópio e não na sede, em Londrina. Obviamente sentiram-se desprestigiados e, um a um, alegando os motivos mais diferentes possíveis foram se desligando da instituição. O jovem contratado, quase um ex-comunista a esta altura, permaneceu na sede e ainda teve sua carga horária aumentada, assumindo também algumas aulas nos cursos técnicos e supletivo que o Colégio mantinha na época.
E assim o ano chegava ao fim. No dia 15 de novembro daquele ano o Brasil via Fernando Collor de Melo ex-governador de Alagoas, herdeiro político de usineiros daquele estado e representante da direita pelo desconhecido PRN, chegar ao segundo turno das eleições com o sindicalista e fundador do PT – que representava a aglutinação das esquerdas no Brasil, Luis Inácio Lula da Silva.
Renato vibrou consigo mesmo. Aquele ano tinha sido pródigo para ele em todos os campos. No emocional havia conhecido Márcia e estava apostando todas suas fichas naquele relacionamento por mais que sua intuição- e uma certa premonição- que tinha desde o malfadado dia nos porões da censura indicassem o contrário. No profissional havia iniciado uma nova profissão: a de professor e sentiu o magistério pulsar em suas veias com uma determinação poucas vezes vistas. E no político por ver que o povo voltava a escolher um presidente e que o Brasil tinha a chance de ser um país de esquerda, ainda que os acontecimentos políticos daquela época mostrassem que esta era a direção contrária que o mundo poderia seguir.
Percebia que tudo o que havia lutado até então e mesmo as poucas horas em que passou por momentos de pânico na Polícia Federal agora valeria a pena estar vivo para ver. Ver os exilados voltando. Conviver com o carisma político de Leonel Brizola – até então um verdadeiro mito político para ele - , conhecer pessoalmente Mário Covas – um dos paradigmas da ética e da integridade política do Brasil, e ver finalmente o PCB sair da clandestinidade e voltar a atuar como um partido político como os outros e não com o folclore que se criou em torno dos comunistas, valeria a pena ver e viver.
Se havia mortos por chorar e presenças a se lamentar – como José Sarney, Paulo Maluf, Ronaldo Caiado e o próprio Fernando Collor, entre outros – havia se restaurado o mínimo de dignidade política ao povo e á democracia brasileiros. E foi com este espírito, vestindo uma camiseta com a bandeira do Brasil escrito – MÁRIO COVAS – que o agora professor Renato foi para o Colégio Hugo Simas, votar para presidente do Brasil. Após 25 anos de uma ditadura feroz, aquele 15 de Novembro foi mais que especial para todos os brasileiros de forma geral. A dignidade, aos poucos, estava sendo restaurada neste país.
Os 18 dias que separaram o primeiro do segundo turno da primeira eleição presidencial no Brasil depois de mais de duas décadas foram, para Renato, menos importantes do que toda a campanha que havia colocado Collor e Lula como antagonistas naquele pleito. Não que ele tivesse perdido o interesse pela política. Ao contrário, cada vez mais se interessava, e justamente nesta época começou a fazer planos para que ele também – um dia – fosse candidato a , pelo menos, vereador. Herança política na família tinha de sobra para almejar isto.
Mas o que desviou sua atenção para aquele período decisivo foi o fato de o final do ano letivo se aproximar e com ele, seu casamento. Naquela época ele já tinha um apartamento dele. Pequeno é verdade. Pouco maior que uma quitinete mas era próprio. Quantos podem se dar “ao luxo” de iniciar uma vida a dois num imóvel próprio? Infelizmente esta não é uma realidade palpável á maioria dos brasileiros.
Empolgado com a entrega do apartamento dias antes do seu casamento, levou Márcia para conhecer o imóvel por dentro. Até então ela só havia conhecido por fora e tinha se encantado. Além do bom gosto na fachada do prédio, este era bem localizado e estava praticamente no centro de Londrina. De onde iriam morar até o Colégio São Paulo, Renato não demoraria mais que dez minutos para estar na escola. Enfim, tudo estava caminhando para uma vida harmoniosa e repleta de felicidade.
Porém ao chegar ao apartamento, a fisionomia da noiva transformou-se. Da alegria pela fachada e pela beleza de salão de festas e recepção, a tristeza tomou conta da jovem completamente ao ver o tamanho da nova residência. Ironicamente perguntou a ele onde estava o resto do imóvel. Era como se uma nova punhalada cravasse seu peito. Sorriu, querendo ali, naquele momento, cancelar casamento e tudo mais. Mas suas esperanças de ter uma vida sossegada e plena eram maiores que aquilo. Mesmo com um golpe inicial e tão profundo como este.
Os dias que se seguiram foram tumultuados. A eleição de Collor era certa, o ano letivo chegava ao final, o casamento se aproximava. Renato estava cada vez mais envolvido com estas três coisas e não necessariamente nesta ordem. O que ele não havia entendido ainda era que o mundo é uma desordem sem limites. E é esta desordem do mundo que o torna fascinante, que acaba com a monotonia, que elimina o tédio, que torna o improvável, possível e o impossível, provável.
No magistério aprendera que verdadeiro mestre é quem aprende com os alunos. Quem partilha, ensina e aprende ao mesmo tempo. Conhecimento é para ser dividido, não imposto. Aprendeu também que na Rede Particular de ensino, assim como na maior parte das coisas da vida, só os talentosos, audaciosos e perspicazes têm espaço. Na política aprendera que tudo pode acontecer. Lula massacrou Collor no último debate antes do segundo turno. Porém o ex-governador de Alagoas usou uma filha ilegítima de Lula e o massacrou nas urnas.
A lição de Collor deveria servir para a vida emocional de Renato para sempre mas ele não se ateve a isto. No amor não existe ética e o pseudomoralismo e a hipocrisia social sempre acabam vencendo e convencendo a maioria das pessoas. Ainda que alguma coisa na sua alma pedisse que tivesse mais calma, viu Collor de Mello ser eleito e ele casar num espaço inferior a dez dias...
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