O jovem comunista estava vivendo em absoluta sintonia com o mundo. Na África do Sul, a luta de Nelson Mandela por igualdade racial e social estava chegando ao fim. O regime de segregação que durante anos assolou aquele país agora dava espaço aos direitos iguais. Na Europa, a União Soviética agonizava. A Perestróica, idealizada por Mikhail Gorbachev começa a soprar ventos democráticos na maior nação comunista do mundo. A “repaginada” que o mundo dava ia, mais tarde, fazer com que as duas Alemanhas voltassem a ser uma só com a queda do Muro de Berlim.
Inspirado nos acontecimentos, o carnaval de 88 foi um dos mais políticos que já se viu. As Escolas de Samba – normalmente engajadas em temas que lhe rendessem dinheiro – resolveram tornar-se politizadas e a febre de temas políticos espalhou-se pelo Brasil. Até o bloco carnavalesco onde Renato e Josiane participavam falam dos novos ares. Subitamente, uma idéia absurdamente louca tomou conta dele: por que ele não arrastava Josiane para assistir ao desfiles das campeãs no Rio de Janeiro?
Mesmo apesar de estar legalmente casado daria um jeito nisto. Precisava da concordância dela. Esta parecia a pior parte. Porém, como se o destino estivesse conspirando ao seu favor, seu amigo Robson comentou com ele esta possibilidade. Principalmente pela nova revolução que Martinho da Vila provocava na história do carnaval. Um enredo despojado de luxo onde o tema era mais importante que todo o resto. A Unidos de Vila Isabel tendo Ruça – então mulher do segundo maior poeta que este bairro produziu para o mundo – trazia um enredo do ex- sargento falando da festa das raças, a Kizomba. Foi uma literal apoteose.
Neste clima político, ela concordou com a aventura então ousada. O problema maior era como fazer com que Lúcia não fosse. Na realidade isto não era um problema dela. E ele estava empenhando em resgatar o melhor do mundo com a jovem atriz. Tudo parecia apenas uma questão de tempo. Mas o tempo nem sempre é aliado de quem se ama...
E, sem fazer muito esforço e com a ajuda do amigo embarcaram em três casais para o Rio. O único casal “não convencional” era Josiane e Renato. Nos demais casais o pânico de haver “barraco” caso Lúcia resolvesse ir conferir o “trabalho” dos três. Ainda assim foram. Ao chegar no hotel verificaram algo que já sinalizava para que desistissem da aventura. Não havia três apartamentos disponíveis para três casais. O máximo eram dois apartamentos triplos. Como era a única situação – física e financeira – que se apresentava toparam. Passaram a noite de sexta feira aproveitando o que o Rio tinha de melhor a oferecer. E acabaram dormindo os homens num quarto, as mulheres noutro.
O comunista dormiu literalmente mordendo o travesseiro de raiva. Era esta a oportunidade de ter sexo real e consumado com a nova namorada e tudo parecia estar contra os dois. Mas as coisas iriam piorar...
Na manhã seguinte todos foram á praia. Renato ficou na cama. Sabia que iria passar a madrugada em claro. Queria estar totalmente ligado em Josiane. Não demorou nada para que batessem á porta. Pensou que fosse o serviço de quarto. Não era. Era a namorada entrando, só de biquíni. Ele, na ereção matutina somada aos sonhos eróticos da noite anterior não escondeu o que estava sentindo. Ela, caprichosamente, deitou sobre ele, tirou a parte de cima e quando iam consumar o ato a amiga bateu afobadamente na porta.
Passaram o final da manhã e boa parte da tarde na praia. Ela parecia feliz com tudo que estava acontecendo. Ele, visivelmente contrariado, fumava um cigarro atrás do outro. Pensava numa boa história – recheada de detalhes para contar para Lúcia. Em outros momentos a única coisa que lhe passava pela cabeça era pedir o divórcio. Queria fazer daqueles minutos um pacto com a eternidade mas parecia que o mundo conspirava contra ele. Naquele dia, almoçaram numa lanchonete na Praia do Flamengo. Estavam todos excitados com a possibilidade de assistir ao vivo o desfile das campeãs. Todos ali adoravam carnaval. Foram para o hotel, dormiram e acordaram pouco depois e sem perder muito tempo rumaram para o sambódromo.
Viram as melhores escolas daquele ano e entraram em êxtase ao assistir a kizomba que Martinho da Vila tinha feito e que dera o primeiro campeonato á Vila Isabel. No dia seguinte, acordaram depois das 13:00 horas e Renato convidou a todos para almoçar no Barril 1800, restaurante no Leblon, onde era possível encontrar vários artistas. Convite feito, convite aceito prontamente. Durante o almoço, Josiane jogou o comunista contra a parede. Percebendo que ele fumava, estava alegou que era alérgica á fumaça de cigarro e que ele tinha que escolher: ou a nicotina ou ela. Ele não pensou duas vezes. Amassou o maço de Carlton – fumava dois daqueles por dia – com seis ou sete cigarros ainda e jogou longe. Daquele dia em diante, raras vezes colocou um cigarro na boca.
Á noite pegaram o ônibus de volta para Londrina. Até ali tudo havia sido perfeito. Á exceção do sexo que até então não tinha acontecido e que, certamente não aconteceria. Mais uma vez o jovem comunista estava enganado. Mal entraram no ônibus e a namorada o levou para os últimos bancos. Ela havia escolhido aqueles lugares e ele não havia entendido o porquê. Não demorou muito e o motivo foi revelado. No momento em que a noite avançou e a madrugada deu seus primeiros sinais ela os cobriu da cintura pra baixo com um cobertor. À medida que os demais passageiros iam cedendo ao sono, ela intensificava as carícias e as preliminares. Até que na madrugada plena o amor se fez dentro daquele ônibus “testemunhado” por mais quarenta pessoas que dormiam profundamente.
Ao chegar em Londrina uma sensação estranha tomou conta da jovem. Renato percebeu. Não era grande observador quando se tratava de sensibilidade feminina. Mas, aqueles olhos verdes misturados com aquela vermelhidão decididamente não era de uma madrugada mal dormida e muito bem servida lascivamente. Decididamente algo errado estava acontecendo ali. Não demorou muito e ele descobriu que estava certo. Ela o chamou para uma conversa e pôs termo ao relacionamento deles. Nova chaga no coração do radialista. Uma punhalada mais que doída e uma decisão mais do que tardia. Seu casamento com Lúcia tinha que acabar também. Era 25 de março de 1988 quando os olhares cúmplices dos dois se cruzaram pela última vez.
Não havia mais dúvidas precisava de uma direção definitiva em sua vida. O problema era como tomar esta decisão. Quis o destino que ele voltasse para a Rádio Norte, antiga Clube de onde um dia havia saído para sofrer na mão da ditadura decadente mas feroz. O salário era infinitamente menor do que ganhava como diretor artístico da outra emissora. Mas haviam comprado uma nova idéia dele. Fazer no rádio AM de Londrina programas que fossem produzidos com roteiro, como nas grandes emissoras do eixo Rio-São Paulo. E, desta forma, Renato iniciava uma nova etapa em sua vida.
A idéia da separação da esposa estava se consolidando a cada dia. Faltava, no entanto, algo que desse motivação a ele para dar o primeiro passo rumo a esta decisão. E não demorou muito e este motivo apareceu. Com olhos verdes – assim como Josiane – um pouco mais alta. Corpo de modelo. Cabelos cor de mel que escorriam por uns sete dedos abaixo do ombro. Sorriso enigmático e encantador ao mesmo. Esta era Ludmila. Novo contato comercial da emissora e que tinha como missão alavancar financeiramente os programas que ele produzia. O cruzar de olhares foi fatal. Ali, uma coisa totalmente nova e maravilhosa encontrava aqueles dois seres. Nem mesmo os boatos de que aquela jovem estava grávida abalou um milímetro do sentimento inicial que havia brotado neles.
Se antes a idéia do divórcio estava viva nele, agora ela aparecia com mais intensidade, com mais vontade. Tinha decidido que teria aquela jovem para ele. E mais uma vez pensou nela como namorada e futura esposa. Viver de paixões e amores tinham se tornado quase que um lema em sua vida. E o álcool continuava como seu aliado. Não demorou muito para que os dois saíssem da emissora e fossem a um barzinho. Aliás, Renato tinha conta nele e lá deixava uns 30% do seu pagamento. Começaram a conversar, trocaram idéias, ele logo fez um poema para ela e o beijo se tornou inevitável. Nascia ali o amor entre eles.
Mesmo casado, levou a vida com ela como se fosse completamente desimpedido. Afinal este era o sentimento que assolava seu peito. Algumas vezes, os dois saíam do serviço e iam para a casa dele onde faziam amor até o anoitecer. Sim, Ludmila estava grávida e ele estava disposto a assumir a paternidade do filho seu filho. Queria a jovem vendedora fosse qual fosse sua situação. E foi desta forma que num belo dia arrumou todas suas coisas e deixou sua casa, Lúcia e o passado que haviam vivido juntos. A esposa já tinha um “namorado” também. E a vida sexual deles era praticamente nula. Assim acabou o casamento deles...
Certa ocasião em que a jovem vendedora demorava para voltar de uma visita a um cliente, ele foi jogar sinuca com Cláudio, seu melhor amigo naquela emissora e que apresentava um programa sertanejo. O colega também vivia um lindo caso de amor. Como os dois estavam apaixonados e decididos a darem uma virada em suas vidas decidiram naquela mesa de sinuca que iriam fazer um novo vestibular. Ele tentaria uma vaga em Letras, o amigo em Psicologia. Nascia ali o professor Renato.
Não demorou muito para que ela aparecesse. Olhar de tristeza nos olhos. Nitidamente contrariada disse que precisava falar com o namorado. A primeira coisa que lhe ocorreu era que ela ia pedir para que ele diminuísse o consumo de álcool. Por ela, abandonaria a bebida da mesma forma que fez com o cigarro. Mas não era. Seu grande amor simplesmente pôs um ponto final na relação. Sem motivo nenhum. Até hoje se comenta que a diretora da emissora teria feito chantagem e ameaçar despedi-la. Outros garantem que ela teria aceitado dinheiro do pai do comunista para deixar a vida dele.
E foi assim que no dia 12 de maio de 1988 a relação entre os dois terminou. Ou foi temporariamente suspensa...
Na madrugada de 13 de maio ele teve um sonho estranho mas que remetia para aquela fatídica tarde de 2005. Justamente no dia em que se celebrava os cem anos da abolição da escravatura, ele teve uma visão muito parecida com a que ocorre, nesta mesma madrugada, no livro “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto. Andando por uma rua estreita vê um bando de menores vindo em sua direção. Ele – no sonho – está alcoolizado. Derrubam-no chão e começam a chutá-lo até que do nada tudo fica verde e um bando de fadas, duendes, gnomos e principalmente bruxas surgem e assustam os assaltantes. O mais impressionante é que a imagem da bruxinha verde ele tinha tido naquela tortura psicológica que havia passado.
Nesta mesma madrugada, na cidade de Três Pontas – terra natal de Milton Nascimento – nascia Cristina. Esta jovem, 23 anos mais nova que Renato ainda viria a se tornar num amor inesquecível de sua vida. Com ela aprenderia coisas que muitas pessoas ainda não entenderam e certamente jamais entenderão.
Tomado por aquele sonho e frustrado com a separação entre ele e Ludmila resolveu diminuir a bebida e concentrar-se mais no serviço e principalmente na campanha política que aconteceria naquele ano. Duas coisas ainda tornavam sua vida insuportável. Beth, a diretora da rádio vivia de fofocas e de intrigas com a maioria dos funcionários. Mais de um jurava que no dia que saísse daquela emissora ia dar um tapa na cara dela. Renato tentava se conter mas via que ficava mais impossível. Outra coisa que o irritava era o fato de ter que falar bem do candidato do PDS – forçando todas suas convicções – que tinha estreito laço de amizade com os donos da emissora. Nesta época também travou contato com um jovem acadêmico de jornalismo, militante do PT que mais tarde se tornaria fenômeno de comunicação e prefeito de Londrina, pelo PDT.
Contando com a desconfiança geral, ele pos-se a estudar para o vestibular. Percebia que sonhos – no mundo radiofônico – são utopias recarregadas dia a dia. Precisava se desvencilhar daquele mundo, mas isto era impossível. Talvez vivendo uma outra realidade – e neste ponto o magistério parecia ser a carreira mais plausível – poderia lidar melhor consigo e com suas emoções. Politicamente continuava o mesmo. Militante de esquerda, acreditando que a mudança começava pelas bases. Mais: que os políticos de esquerda eram honrados em sua totalidade. Descobriria, com o tempo, que as exceções se cabem até para aqueles que jamais as admitiram.
Afastado fisicamente de Lúcia, procurava manter assim a relação com ela. Para sua estranheza tinham se tornado mais amigos agora do que quando eram casados. Certo dia, chegou na nova casa da ex- mulher e a viu com um copo de caipirinha na mão. Julgando-se ainda seu marido, pensou que a bebida fosse pra ele e a sorveu como se fosse água. Não demorou dez minutos para que um homem adentrasse a casa e dando um “selinho” nela perguntasse de sua bebida. Renato entendeu o que estava acontecendo e, mantendo uma certa classe, retirou-se pedindo desculpas pelo inconveniente.
Mal começou a sair da casa e a ex-mulher foi ao seu encontro tentando explicar o que estava acontecendo. Ele, de forma madura, disse que não precisava explicar nada e que ela tinha o direito de buscar a felicidade. Ele é que estava envergonhado por ter sido abrupto. Alegou também que ela poderia ter avisado a ele da nova relação. E foi embora. Só se falariam pessoalmente – depois deste episódio – mais três vezes. Se havia um desconforto por parte dela, por ele tudo estava mais claro e melhor definido.
O problema era que Lúcia não admitia derrotas. Principalmente na vida amorosa. Certa feita chegou a criar um noivado com um ex-namorado. E a partir deste dia passou a ligar constantemente a ele para que os dois acertassem os detalhes finais do casamento. Renato titubeou muito em encontrar com ela. Até que um dia, cedendo ao apelo da ex – e em nome dos bons momentos que tinham vivido – resolveu encontrar com ela. Era 4 de outubro de 1988.
No dia seguinte, conforme o combinado, ele foi ao encontro dela. Almoçaram em um restaurante especializado em comida chinesa e que havia sido sempre o lugar onde ambos selavam as pazes quando a relação estava desgastada. E muitas vezes, isto funcionou.
A conversa seguia animada até que a ex-esposa propôs que os dois deixassem aquele restaurante e seguissem para um motel. Disse mais, disse que eles poderiam passar a tarde toda e até boa parte da noite lá. E ainda fez a proposta que eles poderiam realizar as fantasias mais loucas e até então não realizadas entre os dois. O jovem comunista esta prestes a ceder quando a melhor amiga dela entrou no restaurante e, sem cerimônias, sentou-se junto do casal. Era tudo o que ele precisava e o que ela menos contava naquele momento. A fisionomia de Lúcia transformou-se radicalmente. Ela que antes sorria e via a possibilidade de reatar cada vez mais viva, agora percebia que a relação entre os dois estava mais do que desgastada e que não havia como evitar a separação.
Após a amiga almoçar e enquanto os três tomavam cerveja, a ex-esposa pediu para ir embora. A irritação era agora indisfarçável. Renato não entendia o porquê daquilo tudo mas não escondia uma ponta de orgulho por ter tirado a ex-mulher do sério. Levaram-na para casa e ele e a melhor amiga passaram a tarde tomando cervejas na beira do Lago Igapó, numa lanchonete que nem existe mais. E foi dali, naquela linda paisagem que os dois viram a figura de Ulisses Guimarães declarar promulgada a nova Constituição Brasileira. Era 5/10/88. Nascia ali a chamada “Constituição Cidadã”.
Após esta passagem, a ex-esposa desapareceu. Pouco tinha notícias dela. Afinal ele estava focado no trabalho e era isto que, de fato, interessava a ele. Neste meio tempo começou a freqüentar terreiros de umbanda e chegou a desenvolver a mediunidade. Depois de perambular por vários centros espíritas, afastou-se. Achava melhor não seguir religião nenhuma. Mal se afastou e descobriu que a ex-mulher estava grávida. Descobrira a jogada dela. Passariam a tarde no motel e ele acabaria assumindo a paternidade que não era dele mas que ela juraria ser. Respirou, mais uma vez, aliviado e agradeceu aos deuses por terem o livrado de mais aquela.
Soube, tempos depois que havia nascido uma menina. Seu nome, Isabela. Apesar de nada mexer com ele quanto havia mexido o nascimento daquela mineira que –ainda – sequer imaginava a existência dela achou o nome suave, melódico, de gosto bom. E pela primeira vez aquele nome cravou-se em seu coração e em sua alma.
Quando imaginou que aquele ano havia sido pródigo no que se referia a amor entrou em mais uma situação tragicômica de sua vida. Envolvido com a umbanda, foi convidado para participar da festa de Iemanjá no último dia de 1988 em Praia de Leste. Seu pai tinha uma casa lá. Seus “amigos” do meio do samba pediram a ele que alugasse a casa para que alguns amigos ficassem lá enquanto eles se preparavam para as festas de fim de ano. Renato pediu a casa emprestada e alugou aos amigos. Esqueceu-se de um pequeno detalhe. Perguntar qual era o número de amigos que iriam, porque a casa tinha espaço apenas para 13 pessoas. Saíram na madrugada de 29 de dezembro em direção ao litoral paranaense. Pararam em Tamarana, na época distrito de Londrina e compraram muita bebida na padaria de um primo distante do comunista. Estavam numa Brasília. O jovem pensava aliviado que a casa seria. Pararam ainda em Imbaú. Ali aconteceram duas coisas decisivas na vida dele: primeiro os amigos vinham, nada mais nada menos que em um ônibus fretado. E daquele ônibus desceu Márcia, sorrindo. Ali ele sentiu que terminaria 1988 vivendo um novo amor.
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