segunda-feira, 23 de agosto de 2010

1986

O ano anterior começou sem sustos para Renato. Cada vez mais envolvido com seu trabalho e com seu casamento – que acreditara até então ser para sempre – ele tinha tirado de sua mente as possíveis perseguições que poderia sofrer pelo seu passado político. Principalmente estando praticamente exposto na grande cidade.


    No carnaval daquele ano, a convite do amigo Célio Lupi voltou para Londrina para ajudar a escola de samba que tinha ajudado a fundar e voltar a ganhar um campeonato. Ainda que sua vontade fosse desfilar pela Vai – Vai em São Paulo, optou pela volta para a terra natal a fim de ajudar os amigos. E assim foi feito,


    Num dos últimos ensaios conheceu Fernanda, sobrinha de Célio. A adolescente mexeu com o emocional e a libido dele. Nunca tinha estado com alguém de 14 anos antes. E isto parecia um dose desafio a ele. Porém, havia um enorme empecilho: ele era casado e tinha feito um pacto para si mesmo de ser fiel a Lúcia. Ainda que seus pensamentos o traíssem.


    Por via das dúvidas trocaram telefones e ficaram de se falar com mais freqüência, uma vez que ela também morava em São Paulo. Ainda naquele carnaval – que sua escola ganhou – viu a menina ser internada com mistura de coma alcoólica e excesso de maconha. Voltou para a megalópole, cheio de esperanças no peito, fantasiando os encontros que poderiam se suceder dali.



    Não demorou muito para que seu cunhado desse notícias. Iria se tornar comendador. Renato riu. Sabia que estas honrarias eram compradas e que não tinham a menor importância. No entanto, o cunhado pediu para que ele fizesse reservas num hotel no padrão do Macksoud Plaza – estava lotado naqueles dias – para ele. E assim foi que ele fez as reservas no Brasilton Hotel.


    Na semana seguinte estava o cunhado não com a cunhada, mas sim com a amante. Nada que fosse estranho. A amante era muito mais companheira que a esposa. No dia anterior ao recebimento da comenda, os dois resolveram sair. Jaime – o cunhado – era pródigo. Gostava de presentear quem gostava com o que queriam. Por mais estranho que fossem os gostos.


    Naquela tarde ele não se fez de rogado. Quis conhecer uma casa de massagem que houvessem belas massagistas. E assim foram parar num antro – porém de belíssimas mulheres – na Brigadeiro Luiz Antônio, próximo de onde era o Teatro Bandeirantes. Não demorou muito para que a proposta fosse feita. Renato poderia escolher a mulher que quisesse que ele pagaria. Este desconfiou. Poderia ser um teste. Dois ou três doses depois viu que o convite era sério. E escolheu a jovem que mais parecia com Fernanda enquanto o cunhado pegava uma japonesa. Fizeram sauna e sexo várias vezes. Estava quebrado o pacto que fizera com ele mesmo. Pelas mãos de alguém do próprio sangue de Lúcia. O alívio foi dobrado.


    No dia da condecoração ele ria muito da situação. E quanto mais bebia, mais patético achava tudo aquilo. Estava num evento num dos hotéis mais importantes do Brasil, com boa parte do PIB nacional. Logo ele, um comunista – ou seria ex, a esta altura? – vivendo algo que era frontalmente contrário a tudo que tinha lido, vivido e estudado. Porém um fato chamou-lhe a atenção. Comentava-se á boca pequena que na semana seguinte o Presidente Sarney iria lançar um programa que salvaria de vez a economia nacional: o Plano Cruzado. Mais que isto, ouviu algo que o fez arrepiar todinho. Daquele plano econômico, Sarney se tornaria o maior líder político de toda aquela Nova República que ainda estava em estágio embrionário no país.


    Não demorou muito e o que Renato tinha ouvido começou a se concretizar. De uma hora pra outra a nação se uniu em torno do plano econômico lançado pelo Governo para acabar com a inflação e o que mais se via nas ruas era a figura pitoresca do “fiscal do Sarney”. Por outro lado, aquela experiência extraconjugal havia lhe aberto todas as novas possibilidades possíveis. E, desta forma aproximou-se de vez e perigosamente de Fernanda.


    Aos poucos as conversas foram esquentando. Outra vezes esfriava abruptamente. Certa feita, a adolescente disse a ele que precisava tirar umas dúvidas de Língua Portuguesa. Inocentemente ele acreditou naquela artimanha. Ela, caprichosamente, foi desarrumada para o apartamento dele insinuando que só queria provar do conhecimento dele. Porém naquela tarde de 3 de maio um provou do néctar do amor do outro e os verbos que se conjugaram foram: amar, entregar, beijar, desnudar, gozar...


    Quando a tarde começou a cair os dois foram a uma choperia na Praça 14 Bis. Seria perigoso demais ficar naquele apartamento sendo que Lúcia podia chegar a qualquer momento. E enquanto tomavam um chope e trocavam carícias embaixo da mesa daquele bar, a esposa entrou triunfante. Estranhamente ou distraidamente ela fez – ou fingiu – que não percebera nada de anormal. E juntou-se aos dois.


    Triunfante, Renato percebeu que seu caminho com Fernanda estava mais que aberto. Ela, porém, por pura precaução resolveu mudar os lugares dos encontros. Como uns parentes seus iam passar dois meses nos Estados Unidos e sua mãe ia ficar com a chave do confortável apartamento que eles tinham em Moema, ali ficou o endereço dos amantes. Muitas tardes e até algumas noites regadas a cerveja, vinho e muito, mas muito sexo foram vividas ali. A única coisa que o incomodava um pouco era quando nestes intervalos ela parava para fumar uma maconha. Não suportava o cheiro daquilo – até porque era ex-fumante – mas por aquela relação era capaz de tudo. Estava apaixonado pela jovem, mesmo não tendo sido o primeiro homem – sexualmente falando – da vida dela.


    A relação entre os dois foi ficando cada vez mais intensa, na mesma proporção que o casamento dele ia esvaindo pelos dedos. Porém, três meses depois de iniciado, ás vésperas dos seus 15 anos – onde ele estava mais que convidado, porque também iria dançar uma valsa com ela – ela resolveu por fim a tudo. Era muito nova para encarar uma relação tão delicada. A princípio ele abstraíra bem a separação. No entanto estava viciado nela. E não se dera conta disto.


    A partir daí começou a beber descontroladamente e a ver Fernanda em todas as mulheres com tinha relações vãs. Havia decidido levar seu casamento com Lúcia apenas como fachada e jurou a si mesmo nunca mais se apaixonar por ninguém. O que Renato ainda não tinha aprendido com a vida é que, quando se trata de amor as juras são nulas, totalmente nulas.


    Estava tão fixado em Fernanda que aos poucos foi se tornando relapso no serviço. Certa ocasião, uma fã de um grupo musical famoso na época propôs a ele “qualquer coisa” para que ele a fizesseela estar com eles. Sem o menor pudor, levou-a a uma Kombi abandonada nas proximidades da Avenida Miruna e ali mesmo – dentro daquele carro velho, enferrujado – fez amor com ela. Porém era na adolescente que estavam seus pensamentos. Lembrou de uma vez que a levou num dos cinemas da Rua Aurora – que exibiam filmes explícitos intercalados de Streap tease – e entre uma sessão e outra fizeram sexo ali mesmo.


    No entanto, nos seus poucos momentos de sobriedade percebia que muito provavelmente seria demitido no final do ano. E uma vontade louca de voltar para Londrina começou a bater nele. Ele acreditava que simplesmente mudar de endereço sem mudar de comportamento resolveria todos os seus problemas. Pior que tudo isso. Acreditava que estava suficientemente vacinado no que se referia a amor. E pensava que poderia viver de fachada por toda a vida.


    Não demorou muito para que o irmão – agora comendador – de Lúcia a procurasse com uma proposta de emprego para ela e Renato. Ambos assumiriam a direção de uma emissora de rádio em Londrina. Ele a direção artística, ela a comercial. Além disto, dariam um apartamento mobiliado a eles. E um salário compatível ao cargo que os dois ocupariam. Ao ouvir a novidade, um alívio tomou conta de sua alma. Disse que da parte dele estava mais que aceito. Precisava refazer sua vida e sair de São Paulo antes que ficasse desempregado e fosse devorado por aquela cidade.


    A esposa estranhou a alegria do marido quando comentou com ele a proposta. Achou que ele fosse colocar empecilhos no fato de os dois voltarem para a terra natal. Pensou consigo mesma que havia feito mau juízo dele ao insinuar que ele tinha uma amante. Quem tem amante não aceita tão depressa uma proposta. E em São Paulo os dois só tinham o que crescer. Ainda assim, resolveu, mais uma vez acompanhá-lo.


    E foi assim que no dia 29 de outubro de 1986, ás vésperas de uma nova eleição, que os dois voltaram para Londrina com a finalidade de reformular não apenas a emissora, mas sim o rádio londrinense como um todo. Como são belas, as ilusões da juventude...

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