Renato Oliveira, 20 anos, radialista, ator, filiado ao Partido Comunista sabia que a Ditadura dava seus últimos suspiros, mas ainda não estava morta. E quando um regime de exceção agoniza, os resquícios costumam ser os mais agressivos possíveis. Com isto, ele não contava.
Durante todo o ano anterior, sob o “escudo protetor” da democracia que estava se implantando em todo o país. Renato percorreu boa parte do país com um espetáculo teatral de sua autoria, onde interpretava o protagonista, e que o tema era exatamente os “anos de chumbo” que o Brasil – teoricamente – tinha vivido até naquele ano. E, mesmo com a censura em pleno vigor e com amplos poderes, não foi incomodado pelos homens que zelavam da ordem pública no país.
Ainda assim tomou certas precauções. E no dia 4 de janeiro daquele ano casava-se com Lúcia, irmã de um cacique político do PDS – sucessor da ARENA, partido de sustentação política do regime militar. A intenção era que ela e o agora seu cunhado fossem um escudo protetor á sua integridade física e política. Esquecera-se, no entanto, da máxima de Maquiavel – o único derrotado que não representa nenhum perigo de revanche é o derrotado que está morto -. E isto lhe custou caro.
15 de janeiro. No dia em que o Congresso Nacional escolhia Tancredo Neves como primeiro presidente civil desde o golpe de estado de 1964, Renato – mal chegado de sua lua de mel – era detido pela Polícia Federal para “prestar declarações” a respeito do conteúdo da peça de sua autoria. Neste período os alvarás de censura eram renovados periodicamente. Pouco antes de seu casamento pedira a renovação deste documento. E nem deu a importância que devia ter dado a isto. Este foi seu erro...
Num porão escuro do próprio porão do Departamento de Censura e Diversões Públicas da Polícia Federal, ele passou por horas de verdadeiro pesadelo. Viu que teria o mesmo destino que muitos personagens que conhecera – alguns pessoalmente – desde que tivera o primeiro contato com os comunistas. Quatro “agentes” exerceram sobre ele verdadeiro terrorismo psicológico, acusando-o seguidamente de subversivo por ter escrito uma peça que “incitava” o povo a ler e questionar mais os mandatários deste país. Riu para si mesmo de sua desgraça. Naquele momento histórico em que os generais voltavam á caserna, restaria justamente a ele ter a “honra” de ser o último desaparecido pelo regime agora agonizante?
Depois de urinar várias vezes na própria calça foi “aliviado”. Ficou sem elas, seminu. Sentiu que seu momento havia chegado. Neste momento nomes dissonantes e visões começaram a povoar lhe a mente. Era o tal do “filme” que passa na cabeça de todo moribundo antes de deixar este mundo? Não queria ter a resposta para esta pergunta ainda porque quase a totalidade dos nomes era desconhecida dele. Não tinha a menor idéia de quem seriam aqueles nomes. Num último delírio viu uma imagem dissonante verde num canto da sala. Em seguida, teve a nítida sensação de ver uma borboleta roxa posando sobre a luz tênue que “iluminava” todo aquele porão. Mais nomes foram sussurrados ao seu ouvido. Seria o verdugo? Melhor não perguntar. Subitamente a última visão: as letras gregas Alfa e Ômega. Início e fim. Sim esta era sua hora.
Esperando apenas pelo momento de dar seu último suspiro, viu quando um homem baixo, óculos enfiados no nariz fino e grande, levemente corcunda entrou na sala e, gritando, deu ordem aos homens que liberassem Renato imediatamente. Alegou que ele tinha amigos graúdos em Brasília e que, inexplicavelmente, um deles havia descoberto seu “desaparecimento” e, em plena sessão que elegia Tancredo exigiu a soltura dele.
Mais tarde ficou sabendo que fora seu amigo Robson Garcia, que num gesto mais que tresloucado havia ligado para a Capital Federal e narrado ao deputado o que havia acontecido. Logo, saiu. A situação, no entanto, era ridícula. Estava com a calça toda molhada das variadas vezes que urinara com medo da morte iminente que o havia rondado. Como voltaria para casa naqueles trajes? Teve uma idéia “brilhante”. Encostou no primeiro botequim de quinta categoria que encontrou pela frente e tomou uma garrafa de cachaça sozinho.
Era acostumado a beber cerveja e, ocasionalmente, uísque. Cachaça só como caipirinha e ainda assim em churrascos. Nunca em bares. Mas naquele dia especialmente precisava daquele trago.
Lúcia, sua esposa, estranhou o fato dele chegar fedendo a pinga. Mas resolveu calar-se. Porém, uma vontade de sair de Londrina e ir para São Paulo apoderou-se firmemente de Renato. Nada o faria mudar de idéia. Robson ainda tentou mostrar para o amigo – o irmão que a vida havia lhe dado, como costumavam um dizer do outro – que a cidade de São Paulo era muito violenta com quem tentava se aventurar nela. Costumava não perdoar aventureiros, impondo-lhes miséria e condições subumanas de vida.
O amigo comunista confortou o que lhe havia salvado a vida dizendo que iria com alguma coisa arranjada. Mas precisava ir embora daquela cidade. Todos estranharam uma vez que ele poderia ter feito tal coisa antes de se casar. Agora teria que levar a esposa consigo e isto poderia ser mais uma coisa a impedir que ele realizasse seu sonho. Pela primeira vez, Renato, admitiu a possibilidade de dar aulas particulares de Redação, uma vez que havia feito com que seu primo entrasse num concorrido vestibular só com as aulas ministradas por ele.
Não demorou muito para que o irmão de Lúcia intercedesse por ele. E no dia 2 de março daquele ano embarcava rumo a São Paulo, trabalhar na produção de um programa de calouros na TV Record, em São Paulo. Encontrou um parente de sua recém esposa que foi seu avalista no pequeno apartamento que alugaram próximo á Praça 14 Bis, nos fundos do Teatro Maria Della Costa.
Morando no centro de São Paulo e trabalhando próximo a Congonhas estava relativamente perto de um lugar ao outro. Sua esposa logo trabalhava em uma agência de publicidade. Não demorou muito para que começasse a freqüentar a Escola de Samba Vai – Vai. Afinal, a quadra da escola era muito próxima de sua casa. De uma hora pra outra a vida de Renato estava se encaixando. Ele parecia, agora, mais leve. Até o sorriso tinha sido espontâneo.
Em pouco tempo já estava abrigando um amigo de Londrina. Carlinhos tinha ido para São Paulo para lá assumir sua homossexualidade. Não tinha onde ficar. Renato não se fez de rogado e arrumou um quarto para o amigo. Este foi um passo acertado, pois logo surgiu a proposta para assumir a lanchonete de um lava rápido. Aceitou e entregou a responsabilidade para Carlinhos. Assim ele começou a ganhar dinheiro...
No dia 21 de abril, ao voltar do ensaio da escola de samba, depois de ter tomados uma a mais, chegou em casa e ao ligar a televisão viu o jornalista Antônio Brito anunciar a toda nação que o presidente Tancredo Neves havia falecido naquela hora, em São Paulo. Começou imediatamente a temer pelo seu destino e pelo destino do país. Viu que mesmo tentando fugir tinha ido parar na “boca do leão”. Chorou por ele e por todos os que vieram em sua mente embriagada no final de noite daquele domingo.
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